Segunda noite de Carnaval tem desfiles equilibrados em São Paulo

 Segunda noite de Carnaval tem desfiles equilibrados em São Paulo



CRISTINA CAMARGO E ANDRÉ FLEURY MORAES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em uma sequência de desfiles equilibrados ao olhar do público, Império de Casa Verde, Mocidade Alegre e Gaviões da Fiel se destacaram no segundo dia de apresentações do grupo especial do Carnaval de São Paulo, na noite deste sábado (14) e madrugada de domingo (15), no Sambódromo do Anhembi, na zona norte paulista.

No total, sete agremiações se apresentaram -outras sete haviam desfilado na véspera. A campeã e as duas rebaixadas serão conhecidas na próxima terça-feira (17).

A Império de Casa Verde abriu a segunda noite do Carnaval. Com o tema “Império dos Balangadãs: joias negras afro-brasileiras”, o desfile fez uma referência às joias ancestrais que se tornaram símbolo da resistência negra contra o escravismo. A evolução foi um dos destaques da escola.

Um enorme tigre dourado, que é o símbolo da agremiação, surgiu logo no carro abre-alas. Junto a ele, uma escultura, da “mãe do ouro”, se levantava, em um movimento que chamou a atenção.
Numa ousadia, em segundos, o som parou e os integrantes da escola bateram palmas, sem perder o ritmo.

No geral, a Império fez um desfile equilibrado, colorido e elogiado no Anhembi.

Com referências a Van Gogh e Anne Frank, a Águia de Ouro, segunda escola a desfilar, apresentou o enredo “Mokum Amsterdã, o voo da Águia à cidade libertária”.

A ala “Judia Resistente”, com gotas de sangue alegóricas nas fantasias, homenageou todas as mulheres vítimas dos campos de concentração nazistas na 2ª Guerra Mundial.

Em outra alegoria, ciclistas gigantes exaltaram o hábito dos moradores de Amsterdã de usar as bicicletas como meio de transporte.

A águia gigante, símbolo da escola, veio à frente de um moinho de vento dourado, em apresentação que fez referência aos girassóis e às pinceladas pós-impressionista de Van Gogh.

Os festejos regados à cerveja e música bate-estaca também fizeram parte do desfile. Empolgado, um DJ animou o público do Anhembi.
Também houve polêmica, como a ala cannabis e mulheres em cabines vermelhas em menção à prostituição.

Em uma rapsódia carnavalesca, a Mocidade Alegre veio a seguir e exaltou a trajetória de Léa Garcia, uma das maiores atrizes brasileiras, morta em 2023, aos 90 anos em Gramado, onde receberia uma homenagem.

Vestida com as cores do arco-íris, a médica e ex-BBB Thelma Garcia interpretou a pioneira negra do teatro e do cinema no abre-alas. Outro ex-Big Brother, o também médico Fred Nicácio, fez uma conexão entre Abdias do Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro, e Exu.

Entre outros, o desfile narrou o sucesso da atriz no filme “Orfeu Negro”, com a indicação como melhor intérprete no Festival de Cannes em 1957, e a participação em diversas novelas, entre elas “Escrava Isaura”, onde interpretou a antagonista Rosa.

Na alegoria final, a atriz Adriana Lessa encarnou Léa Garcia na premiação do Festival de Cinema de Gramado, onde ela morreu antes de receber a homenagem.

A evolução foi um dos destaques do desfile, mas a Mocidade precisou apertar o passo no final. A escola encerrou sua apresentação já nos segundos extras para não ter punição por estouro de tempo.

A representação de um ritual com o pó de Yãkoana, um alucinógeno xamânico usado pelos Yanomami, abriu o desfile da Gaviões da Fiel, a quarta a se apresentar.

Na comissão de frente, dez indígenas dançaram em torno de um xamã, no enredo “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”, que celebra a luta e o legado dos povos indígenas.

O manifesto da Gaviões levou para o sambódromo a simulação de uma maloca indígena, povos originários em celebração, cocares originais, grafismo nas fantasias, uma floresta de cor prata e mulheres seminuas cavalgando pirarucus.

Com 72 metros de comprimento, o carro abre-alas trouxe um imenso jacaré em tons ocre -a cor verde é um tabu na escola corintiana.

Indígenas que choram representaram o massacre promovido pela chegada do “progresso”, com grandes ferrovias e árvores derrubadas para a criação de gado.

A escola homenageou líderes como Raoni, Ailton Krenak, Davi Kopenawa e a ministra Sonia Guajajara (Povos Indígenas), destaque em um dos carros.

Sabrina Sato, na Gaviões desde 2004, veio à frente da bateria com uma fantasia que representa as flores da floresta. “Lembrança viva de um tempo em que homem e natureza respiravam no mesmo compasso”, ela disse em uma postagem nas redes sociais.

O desfile da Gaviões lotou as arquibancadas do Anhembi, com torcedores que cantavam sem parar, como em um jogo do Corinthians.

Grandes nomes da música brasileira surgiram no sambódromo no desfile da escola Estrela do Terceiro Milênio, uma homenagem ao compositor Paulo César Pinheiro, 76, com o enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”.

A agremiação exaltou as parcerias com Clara Nunes, com quem o compositor foi casado entre 1975 e 1983, Baden Powell, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Ivone Lara, Arlindo Cruz, João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Cartola e Candeia.

Uma escultura mostrou Pinheiro amordaçado, em alusão à censura sofrida durante a ditadura militar (1964-1985). Com samba interpretado por Grazzi Brasil, o enredo contou a história de “Pesadelo”, canção do compositor que escapou da repressão.
Penúltima escola a desfilar na madrugada deste domingo, a Tom Maior, campeã do grupo de acesso em 2025, abriu o desfile com uma apresentação de Adriano Paquetá, pajé do Boi Garantido, de Parintins (AM).

A agremiação abordou a trajetória do médium Chico Xavier e a história da cidade onde ele viveu, Uberaba (MG), e sua origem indígena.

O ator Renato Prieto, astro de “Nosso Lar”, representou Chico Xavier no quarto carro da agremiação.

A escola enfrentou problemas com a iluminação de um dos carros, mas a questão foi resolvida durante o percurso.

A Camisa Verde e Branco, última escola a entrar na pista, viveu uma situação crítica: o último carro emperrou, o que atrasou a saída e fez a agremiação extrapolar o tempo limite em 19 segundos

A agremiação deve perder três décimos na pontuação, o que a prejudica na disputa com as concorrentes na apuração.

Coube aos integrantes da Camisa Verde e Branco tentar manter o ânimo durante o problema.

Quando o veículo voltou a funcionar, o público que restava nas arquibancadas aplaudiu intensamente.

A sirene que anunciou o fim do desfile tocou minutos depois, quando o portão fechou. Integrantes da escola choravam no local da dispersão, após o portão.

O vice-presidente da Camisa Verde e Branco, João Vitor Ferro, precisou de atendimento médico.

Antes do problema, o enredo “Abre Caminhos” animou o público ao celebrar as diversas manifestações de Exu, o guardião das encruzilhadas, dos caminhos e da comunicação.

A beleza dos tons de vermelho, preto e amarelo das fantasias e alegorias foi ressaltada pela luz do amanhecer no sambódromo. Além disso, vigoroso, o samba-enredo macumbeiro empolgou a plateia.

Três mil placas de búzios decoraram o carro abre-alas da escola, inspirado na arte africana. O cheiro de ervas, o sincretismo com mitos urbanos e ciganos, uma ala de tranca-ruas e pomba-giras foram alguns dos destaques da apresentação.

Intérprete oficial da Camisa Verde e Branco, o cantor Charles Silva, 30, disse à Folha acreditar que a escola fez um bom trabalho. “Carnaval é isso. A gente não controla algumas coisas que podem acontecer na pista. Mas para mim, o que vale é a felicidade do povo. Só quem é Camisa sabe o que a gente passou”, afirmou.



Fonte: Notícias Minuto

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