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‘Bordado Boa Noite’: entenda polêmica entre Havaianas e artesãos da Ilha do Ferro

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A Associação de Moradores da Ilha do Ferro e a Cooperativa de Bordadeiras Art-Ilha manifestaram-se contra a Havaianas, que lançou uma linha de sandálias inspirada no ‘Bordado Boa Noite’, sem consultar os artesãos locais, o que gerou indignação e acusações de apropriação cultural.

As bordadeiras afirmam que a empresa não reconheceu a verdadeira beleza e identidade do seu trabalho, que é uma parte significativa da cultura local, transmitida de geração em geração.

Em resposta, a comunidade expressou abertura para diálogo com a Havaianas, buscando garantir que sua arte e história sejam respeitadas e valorizadas, enquanto o Sebrae Alagoas continua a apoiar a capacitação dos artesãos da região.

A Associação de Moradores da Ilha do Ferro e a Cooperativa de bordadeiras Art-Ilha divulgaram uma nota oficial, nessa sexta-feira, 30, em defesa da cultura e da Ilha do Ferro. A manifestação ocorre após a Havaianas lançar uma linha de sandálias inspirada no “Bordado Boa Noite”, arte que há décadas é símbolo do trabalho dos artesãos e artesãs do povoado, localizado na cidade de Pão de Açúcar, Sertão de Alagoas.

A nota destaca que as bordadeiras, os moradores e a associação não foram consultados, nem incluídos pela empresa no processo e reclama de apropriação sobre a arte pertencente à cultura do povoado. (Veja a publicação no fim da matéria)

“O que nos causa indignação é ver que tudo aconteceu sem que nenhuma bordadeira, morador ou a nossa associação fosse consultada, incluída, comunicada ou autorizada. Além disso, o produto impresso nas sandálias não reflete a verdadeira beleza, a técnica e a identidade do nosso bordado artesanal.

Nossa cultura é feita com suor e gerações de história. Usar o nome da nossa terra e da nossa arte sem nos ouvir de verdade não é uma homenagem justa ao nosso povo; é apropriação do que pertence a nós.

Enquanto comunidade, sempre fomos um povo acolhedor, e por isso deixamos claro que estamos abertos para conversar e entender como foi o processo, mostrar o nosso verdadeiro trabalho e garantir que a nossa história seja respeitada e valorizada do jeito certo”.

No site oficial da empresa, o produto, que é vendido por R$ 94,99 (preço divulgado na data da publicação da reportagem), tem a seguinte descrição: “Inspirado no bordado Boa Noite da Ilha do Ferro, em Alagoas, transmitido de geração em geração. Traduz nossos elementos icônicos de verão em composições vibrantes e texturas ricas”.

Anísio Lima, produtor de moda e estilista alagoano, também usou as redes sociais para apoiar a Associação de Moradores da Ilha do Ferro e a Cooperativa de Bordadeiras Art-Ilha. Ele cobrou a inclusão das artesãs e dos artesãos nos processos, o reconhecimento e a remuneração.

“A Havaianas lançou uma coleção inspirada no bordado ‘Boa Noite’ aqui da Ilha do Ferro, mas só esqueceu um detalhe: incluir as bordadeiras. A Ilha do Ferro tem uma riqueza cultural enorme e, há anos, desperta o interesse de grandes marcas. O Sebrae Alagoas vem há anos construindo um trabalho de capacitação e valorização desses artesãos justamente para fortalecer e cuidar de quem produz. Mas do que adianta vir uma grande marca falar sobre cultura, se quem produz, se quem faz aquilo não participa de nenhum processo? Inspiração cultural não deve ser uma via de mão única, não basta simplesmente transformar cultura em produto, é preciso reconhecer, envolver e remunerar quem a mantém viva”, criticou.

A reportagem não conseguiu contato com a assessoria de comunicação da Havaianas, mas deixa o espaço aberto para o devido posicionamento.

Ilha do Ferro

Às margens do Rio São Francisco, no município de Pão de Açúcar, a cerca de 235 km de Maceió, a Ilha do Ferro reúne pouco mais de 450 habitantes e uma das maiores concentrações de artistas populares do Brasil. O pequeno povoado sertanejo transformou a madeira da caatinga, os bordados e a criatividade de seus moradores em uma identidade reconhecida dentro e fora do país.

O legado iniciado por nomes como Seu Fernando, Mestre Aberaldo, Zé Crente e Roxinha segue vivo nas novas gerações de artesãos.

Veja a publicação da associação e da cooperativa:

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Texto: TNH1. Publicado originalmente em TNH1.

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