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Entre o preconceito e a busca por renda, empreendedores LGBTQIAPN+ abrem caminhos em AL

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A insegurança no trabalho e as dificuldades financeiras levaram Rodolfo Peres a criar a Pridee durante a pandemia da Covid-19. Em Maceió, a marca reúne referências à cultura pop e à comunidade LGBTQIAPN+.

Lorenzo Teles, homem trans de 32 anos, abriu a Raiz e Orgulho Barbearia após conviver com colegas que banalizavam o preconceito. Além de uma fonte de renda, buscava um ambiente onde pudesse trabalhar e acolher clientes com respeito.

“Foi em um momento em que as contas estavam bem instáveis e eu também não tinha muita segurança em relação ao trabalho”, lembra Rodolfo.

No Brasil, 3,7 milhões de empreendimentos são liderados por pessoas LGBTQIAPN+, segundo pesquisa do Sebrae em parceria com o Datafolha, divulgada em 2025.

Os pequenos negócios representam 95% dos 23 milhões de empreendimentos do país. O dado consta no Mapa de Empresas de 2025, do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e Empresa de Pequeno Porte (MEMP).

Em Maceió, a dimensão desse segmento ainda é desconhecida. O Sebrae Alagoas informou que não dispõe de um levantamento que quantifique os empreendedores LGBTQIAPN+ na capital.

Segundo a instituição, abrir uma empresa pode representar realização profissional e independência financeira. Também pode ser uma alternativa diante das dificuldades de inserção no mercado de trabalho.

Uma barbearia para se sentir à vontade

No bairro Salvador Lyra, a Raiz e Orgulho Barbearia funciona há mais de um ano. A ideia nasceu de situações vividas por Lorenzo em outro ambiente profissional.

Segundo ele, os colegas tratavam como brincadeira questões relacionadas à transfobia, ao racismo e ao machismo. Quando tentava explicar como isso afetava sua vida, o problema era banalizado.

Dessa experiência surgiu uma pergunta: como seria uma barbearia onde pessoas LGBTQIAPN+ pudessem se sentir confortáveis e se expressar sem reprimir quem são?

O início foi com uma cadeira de barbeiro usada e um espelho. Lorenzo fazia os cortes em casa até decidir ampliar o atendimento.

“Mas depois de uns 3 meses decidimos dar outro passo e alugamos um espaço para crescermos e acolhermos os clientes da melhor maneira”, relata.

Embora a ideia tenha surgido de última hora, ele acreditava no potencial da iniciativa. Segundo Lorenzo, mais de 600 pessoas já utilizaram os serviços do local.

A barbearia recebe cerca de 30 clientes por semana. Com agendamento prévio, oferece cortes, tinturas, hidratação e acidificação.

O cuidado também passa pelas relações entre clientes e funcionários. O ambiente permite conversas sobre assuntos que, em uma barbearia convencional, poderiam ser evitados por receio.

“Temos uma equipe unida e buscamos ter ao nosso lado parceiros de trabalhos da comunidade LGBTQIAPN+ e sempre buscando o melhor atendimento”, afirma.

Manter a atividade, porém, exige enfrentar obstáculos que vão além da conquista de clientes. O Sebrae Alagoas cita a burocracia, os custos de manutenção e as dificuldades de acesso ao crédito.

Em determinadas situações, o preconceito e a discriminação também impõem barreiras. Para pessoas trans e travestis, há ainda entraves relacionados ao reconhecimento do nome social.

A instituição destaca também dificuldades na atualização de documentos e cadastros necessários à formalização dos negócios.

Da instabilidade à criação de uma marca

Na Pridee, a identidade LGBTQIAPN+ aparece em camisetas e acessórios autorais. As peças trazem frases, memes e referências à cultura pop e à comunidade.

Rodolfo começou a investir na marca conforme conseguia reservar parte do que ganhava em outras atividades. O aporte inicial foi de cerca de R$ 5 mil, distribuído ao longo de três a seis meses.

“Fui investindo aos poucos, durante uns três a seis meses, usando parte da renda de outras atividades que eu já tinha”, conta.

Os produtos são feitos em um ateliê, onde ele organiza as tarefas e, em alguns dias, também participa da produção. Segundo Rodolfo, essa rotina ajuda a manter os preços mais acessíveis.

Sem loja física, a Pridee participa de eventos, feiras e festivais de cinema, música e outras manifestações culturais.

O percurso teve episódios de preconceito, mas também trouxe visibilidade e oportunidades de participação em grandes eventos de Alagoas.

“Apesar dos episódios de preconceito, acredito que assumir de forma tão clara a identidade da marca foi muito importante para a trajetória que ela construiu”, avalia.

Respeito nas relações de trabalho

A experiência de quem trabalha na Pridee acrescenta outra perspectiva à história da marca. Davi Morais, líder da equipe de vendas, relata ter enfrentado homofobia em empregos anteriores.

Segundo ele, as situações ocorreram tanto em entrevistas quanto no exercício das funções. Na experiência anterior à Pridee, conta que não permaneceu na empresa após trabalhar com um gerente homofóbico.

Hoje, Davi considera suporte e respeito necessidades básicas. Também destaca a importância da clareza na relação com a chefia e nas condições de trabalho.

“Minha carga horária é ‘mara’, e sempre tenho a oportunidade de ganhar uma remuneração extra, possibilitando o planejamento de viagens e futuro”, afirma.

Os relatos mostram como a geração de renda se relaciona às condições em que o trabalho acontece. Para desenvolver essas atividades, orientação, capacitação e financiamento também são necessários.

Iniciativas de apoio em Maceió

A Secretaria Municipal da Mulher, Pessoas com Deficiência, Idosos e Cidadania (Semuc) informa que promove ações de empreendedorismo e geração de renda para a população LGBTQIAPN+.

Entre elas está a Feira de Empreendedorismo LGBT+, que oferece espaço para divulgação e comercialização de produtos e serviços de empreendedores da capital.

Segundo a Prefeitura, a iniciativa já recebeu investimentos que somam mais de R$ 200 mil.

A secretaria também cita o Banco da Mulher Empreendedora. O programa municipal de incentivo aos pequenos negócios estabelece prioridade para mulheres trans.

De acordo com a gestão, as ações buscam ampliar oportunidades e fortalecer a autonomia financeira de grupos que enfrentam dificuldades de acesso ao mercado de trabalho.

Na barbearia de Lorenzo e na marca de Rodolfo, equilibrar despesas e conquistar clientes faz parte da rotina. Ao lado dessas demandas, permanece o cuidado com o respeito à diversidade no atendimento e nas relações profissionais.

*Estagiárias sob supervisão da editoria

Texto: Cada Minuto. Publicado originalmente em Cada Minuto.

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