O Tribunal do Júri segue na tarde desta segunda-feira (19) com os depoimentos decisivos de Manoel Pedro Tavares de Souza e Nicole Maria de Lima Braga, réus acusados pela morte do pequeno Rhavy Abraão, em sessão conduzida pelo juiz Geraldo Amorim.
O julgamento não tem previsão de encerramento, já que, no início da noite a fase de depoimentos ainda não havia sido encerrada. Antes da sentença, as partes ainda realizarão os debates e haverá a deliberação do júri, antes do magistrado proferir a sentença definitiva ou inocentar os réus.
Durante o interrogatório, Manoel Pedro assumiu abertamente a sua atuação no crime organizado local, mas rechaçou categoricamente qualquer participação na agressão ao menino.
“Pra ser sincero ao senhor, eu não trabalhava, eu era traficante na área. É vergonhoso pra mim, mas é a verdade e eu não vou negar aqui”, declarou Manoel Pedro ao juiz.
Ao ser questionado sobre o uso atual de entorpecentes, o réu respondeu: “Não, porque estou preso, infelizmente”.
Em relação à morte de Ravi, Manoel Pedro negou veementemente a autoria das agressões e direcionou a responsabilidade para a ex-companheira.
“Senhor, eu nunca ia ter essa coragem de fazer nada com uma criança, eu sou um homem. Pra mim foi minha ex-companheira, a Nicole, se só estava eu e ela em casa?!”, argumentou o réu.
Ele sustentou que dormia no momento em que a criança ficou sob seus cuidados: “A Nicole foi trabalhar e os meninos ficaram em casa, estava a mãe dela, a avó e eu que estava dormindo, com sono pesado, nem sabia que ela tinha deixado o menino no quarto comigo”.
Sobre a noite anterior ao crime, o réu detalhou o consumo de bebidas e a movimentação na residência. “Na noite antes do crime, começamos a beber por volta das 14h, por volta das 20h fui dormir porque não aguentava mais. Aí chegou o Williams e eu vendi e ele foi embora. Ela disse que não ia dormir naquela hora pq ainda ia dar banho nos meninos e arrumar a casa, porque, no outro dia, o mais velho tinha aula”. Manoel Pedro confirmou ainda que o casal publicou imagens em redes sociais usando filtros e ostentando durante a noite.
No encerramento de suafala, o réu reforçou o pedido de condenação do verdadeiro culpado:
“Dra, eu era traficante, mas essas mãos aqui nunca matariam uma criança, até porque nesse meio não é perdoado. Quero que a Justiça seja feita, mas de verdade e condene quem realmente fez isso com a criança. Eu quando era menor fui acusado de tentativa de homicídio, fui absolvido, eu andava armado, eu assumo os meus erros”.
Logo após a oitiva de Manoel Pedro, a mãe da criança, Nicole, iniciou seu depoimento sob forte emoção. Aos prantos, ela negou ter tirado a vida do próprio filho e atribuiu o crime a Manoel Pedro.
“Eu disse que foi ele porque, quando o laudo chegou, a delegada disse que foi por agressão e não por conta da suposta hidrocefalia”, revelou a ré.
Nicole descreveu o histórico de relacionamento conturbado com o acusado e relatou um episódio de chantagem emocional após uma separação: “inclusive, disse que não saberia viver sem a minha pessoa e que se eu não voltasse pra ele, ia se matar. Aí eu saí procurando ele e achei ele em cima de um coqueiro, quando ele desceu eu vi que estava com um pinhal e ele disse que estava pronto pra se matar. Aí levei ele pra minha casa, parecia que estava tudo resolvido entre a gente”.
A ré explicou a rotina daquela data, afirmando que saiu cedo para trabalhar e lavar roupas na casa da irmã após consumirem bebida alcoólica e maconha no dia anterior. “Naquele dia só fumamos três cigarros de maconha, à tarde”, pontuou.
Ela relembrou o momento em que recebeu o aviso sobre o estado de saúde do filho: “dizendo que meu filho não estava respirando, aí sai correndo desesperada, vi uma viatura da polícia , dei a mão e disse que meu marido ligou dizendo que meu filho não estava respirando. Então eles me levaram. E o meu marido não demonstrou nenhum sentimento, só disse você tem que ser forte porque tem mais dois filhos para criar. E mandou eu comprar quentinha para os meninos”.
Durante a sessão, a ré também prestou esclarecimentos sobre um incidente anterior envolvendo cola instantânea nos olhos do menino. Ela contou que trabalhava na praia quando o acusado a buscou às pressas. “Quando cheguei lá, sou vi os outros meninos e aí perguntei por Ravi foi quando ele disse que tinha sido levado para a Upa por .Inha mãe, porque ele tinha colocado os olhos com cola super Bonder. Aí eu disse, como você deixou acontecer isso, véio, se ele cegar? Fiquei desesperada, e o meu filho foi levado para o HGE porque na upa não resolveu”.
A mãe citou ainda a reação do filho mais velho ao encontrar a vítima desacordada: “meu filho mais velho disse que viu o Ravy mal e foi chamar o Pedro, que ele desceu e chamou duas vezes, mas o Ravy não respondeu , aí ele botou Ravy no colo e foi fazer a respiração boca a boca”.
Ao concluir as respostas aos questionamentos da promotoria, Nicole garantiu que nunca espancou os filhos — admitindo apenas palmadas e castigos pontuais — e reiterou que ignorava a causa violenta da morte até o laudo pericial: “Só soube à noite, até então pensava que era morte natural, que poderia ser até hidrocefalia já que estava com suspeita”.
Após as oitivas, o Ministério Público de Alagoas (MPAL) decidiu solicitar acariação entre os corréus.
Os trabalhos no Tribunal do Júri prosseguem com os depoimentos para, em seguida, dar início aos debates entre acusação e defesa.
Texto: Alagoas 24 Horas. Publicado originalmente em Alagoas 24 Horas.
